segunda-feira, 15 de junho de 2015
Sacos.
Todo mundo vem ao mundo com um saco. Esqueçam as anatomias, todos vem com um saco. Pois bem, esse saco serve pra guardar nossas "coisas de dentro", mas que não cabem mais dentro.
As "coisas de dentro" são todas àquelas que você produz no encontro com você mesmo. A partir do primeiro e do segundo cérebro, e também daquelas outras formas de viver. Acontece que tem gente que enche o nosso saco. Algumas pessoas transbordam seu próprio saco e, na ausência de ter outro recipiente guardador, começam a guardar suas "coisas de dentro" no saco dos outros.
É evidente que diante disso, os sacos, ambos, ficam pesados demais pra serem carregados no caminho. Tem gente que é tão incapaz de seleção, que enche o saco de mais de uma pessoa no mundo, aliás, tem gente que precisa de dez, quinze, talvez até trinta sacos alheios pra depositar suas "coisas de dentro". Eu tenho piedade. Compaixão.
Na verdade, as pessoas acumuladoras, tendem a não perceber que são sempre pesadas demais, carregam coisas demais. Pra essas pessoas, a solução é começar o processo mais difícil: juntar todas essas "coisas de dentro" e deixá-las em algum lugar onde existem pessoas com sacos vazios....como é aquela expressão popular?... fazer um "saco do pobre". Doar.
Depois disso, vem a parte estranha que é ver o saco vazio, ser leve. Num processo desse você aprende que não é bom guardar tudo, não é bom recolher tudo o que vê, e não é bom ocupar o saco de outrem.
As pessoas realmente não precisam guardar suas "coisas de dentro".
quarta-feira, 8 de abril de 2015
sobre os "s"
Aquela sensação de pós-morte desce seco pela garganta. Mais um, e talvez só mais um. Ainda não soube de que foi, se foi de amor, ou desamor. Se foi só... se foi só.
Tinha uma vontade estranha, de um dia ser capaz de secar todas as lágrimas que já se guardaram nos seus rios. Tinha uma necessidade estranha de fazer racionamentos desnecessários. Tinha nenhuma chance de secá-las, porque lhe falaram que é bom guardar, quem guarda sempre tem. É o ditado. Mas, tem pra quando?
Um dia, foi seduzido pela vida, pelas cores da vida, pela possibilidade de comê-las. E quase comeu, quase.
De fato sentia uma angústia, grande, dentro de si. Uma coisa que nunca passava, nunca ia embora, estava sempre lá, renovando votos de um casamento: na alegria e na tristeza, a tristeza nunca ia embora. Agonia, desassossego, e uma vontade grande de mudar, sempre mudar...e sempre mudava de fato. Mudava tanto que nem sabia mais aonde tinha deixado seu corpo.
Nesse dia, andou pelo branco e pelo preto, andou pelo cinza, andou com seres grandes e pequenos...andou por aí, com a certeza de que não tinha dado um passo sequer. Nessa andança achou-se. Depois de tanto andar se encontrou e conversou longamente, achou-se, e chorou-se.
Foi tanta a força desse encontro, que nem sabia pra onde ia depois sem "si mesmo", foi tanto o estrago desse encontro que, mesmo se quisesse não havia uma gota sequer de lágrima nenhuma pra chorar-se. Por mais que doa, nunca chora, há um racionamento, há seca. E mesmo assim insiste em procurar alguma água pra chorar-se, numa espécie de autopiedade, de misericórdia de si no encontro com o mundo. Porque o mundo é um espelho, e o reflexo que se vê é cheio de marcas fundas e fendas escuras e tristes.
Naquele dia, naquele encontro, ninguém podia duvidar de dor nenhuma, a dor estava ali manchando as paredes, sujando os móveis, rasgando as roupas, e destruindo abraços futuros. Ele chorou-se tanto, se visse, nem acreditaria.
Quem dera pudesse ir sem deixar nenhum choro, nenhuma tristeza, mas, assim como os cheiros, os sentimentos ficam vagando, procurando seus donos, mesmo depois que eles vão embora. E depois, quando não acham o que procuram, fazem os outros sentirem seus cheiros, e comerem seus sentimentos. É quase como as almas de quem amou um dia, elas ficam, pra amar quem nunca amou.
De tanto chorar-se, não havia mais nada a fazer. Aliás, acho que o sentido de guardar as águas de dentro se justifica para que a sensação de que algo ainda pode ser feito perdure na cabeça, porque depois do choro, não há mais mar. Como pode o desassossego ter tantos "s" e ser tão singular?
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
- balelas sobre os começos.
Anos com números pares costumam ser sempre mais difíceis. Eu sempre achei que isso fosse uma indicação do zodíaco, uma coisa meio cabalística ou talvez a maneira como eu tento justificar a minha falta de energia nos meios e fins das coisas. Eu gosto mesmo é de começar.
A intenção é sempre criar uma expectativa mais complicada que a do ano anterior pra depois usar isso para explicar por que não deu certo. O fato é que este ano quase novo, de fato, não traz nada aparentemente surpreendente, não a primeira vista. Nada que me faça romper, sair, mudar, rir, chorar e tals...é só um ano, e talvez ele nem tenha que começar no dia 1 de algum calendário romano, grego judaico, chines ou microcósmico. Ele começa quando começa. Eu talvez não tenha terminado algum ano no meio do caminho. Quando olho pra essas coisas quase não da pra vê-las se modificando. E o tédio, ah, o tédio é uma constante. Eu não gosto dessa cidade, e não sei se gosto de alguma verdadeiramente, na realidade eu gosto de estar na transição entre uma e outra, gosto de sair e voltar, pra gozar na saída e brochar na chegada...num ciclo que me traz entusiasmo e a certeza de que meu lugar é, mas não é, aqui.
Talvez esse novo ano ímpar possa ser mais, e eu sempre espero que seja. Eu espero que as coisas se mexam, e me levem junto, me carreguem...mas daí lembro que, eu sou a coisa, sendo eu a coisa eu é que tenho que fazer a mala e botar nela o movimento que não me deixa parar.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
- em tempos de.
Em tempos de solidão, quase não dá pra mensurar quando um vai embora. E nem dá também pra falar de saudade, e nem dá pra falar de só, de sozinho. É que só, pode ser uma palavra tão bonita, mas tão doída.
Em tempos de solidão, quando tá cheio, tá vazio. Acho que deve ser assim que as coisas vão embora, num piscar de olhos, num descuido do acaso, num movimento tênue. As coisas vão embora quando a gente para pra amarrar o tênis, elas não esperam...parece que estão sempre atrasadas pra tomar o trem. O sinal das portas, elas entram e nem olham pra trás.
As coisas vão embora sem dizer pra onde, vão indo. Acho que é assim com tudo, com as coisas grandes e pequenas, no fundo é tão fácil deixá-las ir, e tão fácil se desapegar, talvez esteja aí o vazio do desapego. O desapego é um engano.
Muitas coisas foram embora, muitas. Eu fui. Fui tanto que nem posso mais voltar, nem me lembro donde era, nem me recordo das marcas de um caminho, nem sei se fui pelo curto ou pelo longo. As coisas vão embora com a mesma rapidez súbita com que se vai a lesma no caminhar do mundo. Eu fico pensando que a lesma é bem rápida, mas tão rápida, que fica até em câmera lenta. Pense só: a lesma é mais rápida do que a montanha, do que a árvore, do que a água, do que o vento...a lesma é mais rápida do que várias coisas que demoram pra terminar de existir. E assim, as pessoas, que são tão rápidas quanto elas, podem ser tão devagar quando vistas em comparação com o cosmos.
E nem é de saudade, mas o fato é que o homem fica triste hoje, porque aquele que falava de silêncio hoje grita em outros rumos. Os homens ficam tristes hoje, porque quem será que vai caminhar tal qual as lesmas? Fica triste por que ninguém olha pro chão investigando suas belezas, e feiuras. Eu fico triste, por que mal tive tempo de conhecer as coisas, e elas já tão indo.
E se eu fosse falar de saudade, nem seria tão triste como é agora, e saudade é uma coisa que não vai embora.
terça-feira, 24 de junho de 2014
- numa janela virada pra rua.
Estive sonhando com o que acontecerá na próxima primavera. Será que deus vai parar de fabricar margaridas com pétalas em números pares? Essa historia de bem-me-quer me parece um pouco ingenua.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
- Desleal (parte II)
O copo vazio, minha dor cheia de glamour e meus sonhos expostos na mesa. Meu baralho incompleto, meu jogo "furado", minhas mentiras amarelas, meus sorrisos extremos, meus olhares perdidos e meu silêncio "tererê".
O som quebrado, as mãos formigando e meus pés gelados. A noite cheia, a casa vazia e a hora que não passa. O tédio. Soletrando: T-é-d-i-o.
Fotos velhas, momentos passados, estante cheia de coisas inúteis e bebelôs feios. Televisão colorida com imagens ultrapassadas filmadas em algum lugar longe daqui. Tudo sem vírgula.
Aldous, Morrisey, Elis, Raul, Borges, Clarice, Janis, Etta, Jorge e a porra toda. O free acabou. Sempre acaba. Que silêncio aqui dentro.
quinta-feira, 27 de março de 2014
- sem cigarros.
- Quando a gente olha pra trás, percebe como e por que, ficamos tão inertes.
A constatação mais fria e fácil é a de que "dizer" é sempre um desafio no mundo. Capitalizar o amor, a companhia que não nos fazemos a nós mesmos. Pouco tempo só, muito tempo sozinho. Ninguém pode medir o peso das nossas bolas de ferro. Aliás, muitas vezes nossas bolas de ferro pesam uma grama. Não sabemos, porque não nos mexemos para saber.
Sinto mais falta do tempo que perdi, pensando em quanto tempo eu perdi, do que o tempo que poderia não ter perdido. Perder? Acho uma palavra tão vulnerável, perder não combina com desistir. No fundo, só queremos que alguma coisa pareça dar certo, alguma coisa nos indique um rastro de certeza, um rastro de cheiro de flor, algo que, na verdade, não nos permita pensar no mundo tal como ele é. "Eu quero dias lindos sorrindo pra mim, eu quero amar, eu quero ficar louco!!" É um clichê, mas é inegável, que os clichês são truísmos. Verdades banais, que quase perdem o sentido pela convicção com que os repetimos. Eu acredito neles, assim como acredito que não passava de uma história mal contada, mal escrita e mal encenada. É como as novelinhas do Manoel Carlos. Queremos dramas burgueses, pra não pensar nos nossos próprios e irrevogáveis dramas reais.
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