sexta-feira, 6 de maio de 2016

zero

O que querem?
A vida não tem passado.
E tudo o que se tem, é o que falta.

sábado, 26 de março de 2016

Rima pobre.

Na cidade de pedra
Se não tem mato, eu me morro
No concreto dos prédios
Se não tem ar, eu me atiro
Na fumaça dos carros
Se não tem pé, eu te peço
Que no sufoco dos dias
Se não tem trégua, eu me entrego
No sofá eu me deixo, e no copo me queixo
Por um pingo de água, por um pingo de apreço
Na cidade do escuro, no horizonte eu me perco
E nas ruas ferventes, nos homens sujos me vejo
Se o tempo eu vendo, no espaço me prendo
Pra pagar o que nego, e dever o que penso.

sábado, 12 de março de 2016

Das coisas que eu não sei fazer.

Estava eu só, fazendo as contas na varanda. Estava calculando se devia ou não fumar aquele cigarro. Calculei: um maço custa r$ 7,50 dinheiros, dividi, no meu esforço humanóide, isso por 20, conclui algo por volta dos 0,40 centavos de dinheiro. Pensei que, está inviável fumar um maço por dia. Pensei então que deveria fazer o maço durar por dois dias, e calculei de novo o quanto isso me custaria. Eram quase dez da noite, e chovia de leve. E eu ainda me punha nessa danação de calcular o alívio. Tinham quatro. Pensei que se fosse dormir cedo, talvez durasse até o almoço do dia seguinte, e comecei a arquitetar de que forma dormiria cedo, na angústia do alívio. Talvez se me deitasse e forçasse a mente ao nada, conseguiria. Não dava, estava muito entediada pra dormir. Então pensei que se Julia chegasse em casa, pediria um cigarro pra ela, e pouparia os meus. No fundo, eu não conseguia parar de pensar em como resolver o impasse. Passei um café, numa ilusão de que isso postergaria o cigarro. Na verdade, sabia eu, que isso seria fatal.
Pois bem, eu acendi o dito. E dava duas longas tragadas, enquanto colocava meu tesouro na mureta. Ao bater a primeira leva das cinzas, não teve jeito de impedir. O vento forte carregou meu maço pra laje do vizinho. E aí eu quis chorar, e disse que não ia me render. Fiquei furiosa...
Quando vi, lá estava eu, na garoa, as onze, no posto de gasolina.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

saia.

É quase como uma lágrima, mas não é exatamente. É quase.
Alguma coisa precisa sair de dentro se não eu me morro.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

B

Primeiro é aquele momento eufórico de ter a posse de si, e dos outros em consequência. Depois vem aquela ansiedade de ter a si, e ter tudo. Depois vem aquela sensação de não saber o que fazer com si. Fica difícil saber sem saber tocar um violão.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

sobre as mesas.

Sobre escrever coisas, sobre lembrar de coisas. A nostalgia é uma constante na vida dos ansiosos.
Um café, um cigarro, um café, uma cerveja, um cigarro. Faz algum sentido não se sentir só? Como pode alguém, no meio dessa coisa toda, não se sentir só?
Sobre vida saudável, cinema israelense, conflitos políticos do sul do oriente médio, do leste, não sei, sobre as conjunturas da decadência humana desde há dois mil anos atrás, sobre crianças e velhos e a tecnologia...enfim, parece que só gente de meia idade pode mexer com as telas touch...enfim, sobre essas coisas que as pessoas andam falando por aí. As pessoas andam falando por aí, e falam bastante sobre coisa alguma, e na verdade elas não andam falando, elas falam paradas mesmo, e bem paradas, quase imóveis. Nunca entendi muito bem essa coisa de "andam falando", o português é engenhoso mesmo né. Na verdade são muitas coisas, mas nem da tempo de pensar sobre o quê direito das coisas.
Eu tenho a sensação que todo mundo está deixando progressivamente de ser louco.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

!

É só minha cabeça deitar-se sobre a fronha (nome feio) florida pra que todas aquelas pessoas comecem a transitar. Mas não é possível!! Por quê agora? Já subi ladeiras, lavei as louças, li uma porção de páginas daquele livro, já fiz um chá, já fumei um e dois...não.
Seres impacientes, por que não me dão alguma tranquilidade noturna? O mundo não vai acabar de madrugada. 
Eles saem zumbizando do fundo da minha cabeça e falam por horas sobre todas as conversas que por algum motivo eu não tive tempo de ter. Todas as resoluções, todos os fins de conversas difíceis, todas as vezes que esqueci o nome de uma coisa...tudo isso surge num lampejo maravilhoso de euforia, e aí fico pensando que podia escrever um telegrama para cada uma daquelas pessoas falando aquilo que faltava, e lembrando o nome de todos aqueles cantores de sucessos populares, que em algum bar da cidade, em alguma hora da madrugada, eu esqueci.
Oras, fico com esse mosaico de informações lembradas: Katinguelê, Kant, Doroty Marques, Robinson, Jacksons Five, Murilo Mendes, e mais tantos nomes e coisas que esqueci num momento de perda de memória recente. Logo imagino como a conversa teria sido melhor se tivesse lembrado disso naquela hora.Ou então, como seria melhor se eu tivesse lembrado de dizer aquele desaforo quase catártico quando ouvi umas injúrias na boate.
Enfim, acho responsável mandar um telegrama. Ninguém pode viver sem saber que essas coisas e nomes estavam ali...talvez todos possam, menos eu. Eu preciso comunicar. Preciso dizer que lembrei aquilo que esqueci antes que eu me esqueça. Se eu não faço isso fica todo mundo fazendo algazarra na minha cabeça, como se tivessem me lembrando que eu não posso dormir devendo a informação inútil. Fico compondo os contextos, fico remontando as falas, dirigindo a vida em remake.
Vanessa Rangel.